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covid19: tempos de ser equilibrista

Temos postado conteúdos diários aqui no nosso blog e com os mais variados assuntos pensando nas dores, dificuldades e oportunidades que as empresas possam ter durante esse momento de crise e isolamento. Nossa intenção sempre foi criar um espaço colaborativo, um lugar para as pessoas consumirem conteúdos atuais, relevantes e que de fato possam fazer a diferença.

Mas para entender quais dores e pontos de interesse que as pessoas estão tendo em relação ao mercado a gente se questiona o tempo todo, e questiona os que estão em nossa volta e os que estão longe. E depois de conversar com muita gente, hoje nos deparamos com um texto do Gregório Duvivier na Folha que soou como utilidade pública.

Para os que tem a possibilidade de exercerem o trabalho remoto, ele veio como medida de segurança e conforto nesse período tão difícil, mas junto dele vieram diversos “to do” para conciliar com nossa carga horaria profissional. Acreditem se quiserem, mas uma das maiores dificuldades do período de isolamento tem sido equilibrar todas as tarefas que as empresas, casas e filhos demandam. E um monstrinho chamado cobrança chegou junto de tudo isso, uma vez que as pessoas se cobram o tempo todo por não conseguirem produzir no trabalho como antes, dar a atenção para os filhos como antes ou manter a casa limpa como antes.

E a internet que está repleta de filmes e séries para ver, receitas para testar e aulas online de yoga nos coloca em uma posição de cobrança ainda maior. Foi exatamente por isso que resolvemos abordar esse tema hoje e trazer o texto do Gregório para falar para todos vocês – principalmente para pais e mães – que tá tudo bem. Tudo bem a casa não estar brilhando sempre e a pia sem louça pra lavar. Tudo bem seu filho estar consumindo mais tempo de telas do que antes. Tudo bem você ter dias menos produtivos no trabalho.

Plate Spinner por Emma Block


O mundo não está bem mas vai ficar. E quando tudo isso passar, que a gente consiga ter uma concepção menor de auto-cobrança e nos enxergue como profissionais, mães e seres humanos mais fortes e capazes depois desse período de equilibrar o mundo todo em uma bandeja.

“Não é fácil estar confinado com uma criança. Faz dois meses que minha filha pede, todo dia, pra ir à praia.

Na primeira vez, tentei explicar que não dava. “Filha, tá rolando uma pandemia, como é que eu vou explicar, um vírus que…” —daí me lembro que ela tem dois anos de idade. Tento resumir: “Não dá, é impossível”, e ela então começa a chorar, e lembro que é mais fácil explicar uma pandemia pra uma criança de dois anos do que dizer que “não dá, é impossível”.

No desespero surge uma ideia. “Chegamos. Olha o mar ali.” E aponto o tapete azul. E ela vê o mar se erguer, e abre um sorriso. Basta.

Desde então, quase todos os dias ela me diz: "Vamo pá paia?", e vai buscar o maiô, seu chapéu UV e sua cadeirinha de praia diminuta. Espalhamos almofadas pelo chão, nossa areia improvisada, e então ela abre a cadeirinha em frente ao tapete azul, que faz as vezes do mar.

Puxo uma cadeira e chamamos o moço do mate de galão. Pagamos com uma tampinha de cerveja. “O tôco”, ela lembra. E pego de volta a tampinha que eu mesmo fingi que tinha entregado. “Obrigado.” Um biscoito Globo pra cada um. Doce pra mim, sal pra ela.

Contemplamos o mar: "Hoje tá bravo, digo. Você tem coragem?". Ela diz: "Tenho". E mergulha no mar do tapete, gritando. “Olha, papai, um peixe!” E ergue uma almofada. "Cuidado!", digo.

Você tá muito fundo. Ela então finge que se afoga, e eu corro pra salvá-la. E é uma desculpa pra abraçá-la muito forte.

Desde então a estante já foi um castelo, o armário um esconderijo. Chegamos num momento da quarentena em que todos os objetos da casa já foram ressignificados. Já não há mais o que inventar. O esfregão é uma peruca, a vassoura é um cavalo, o controle remoto é um celular, a televisão, uma grande aliada. Na hora da faxina, toma-lhe “Frozen”. Livre estou, cantamos, livre estou —como se estivéssemos.

Já não sei como vai ser seu reencontro com a praia de verdade. Talvez a areia incomode, o mar amedronte. Dois meses e meio, fiz as contas, equivalem a três anos pra mim: um décimo da vida. É uma eternidade. Já não sei se o mundo lá fora estará à altura do tapete.

Muitas vezes invejamos os amigos sem filhos. Os livros que estaríamos lendo, os filmes, as séries, os instrumentos que aprenderíamos a tocar. Mas o tapete seria apenas um tapete. E a vassoura apenas a vassoura.

Não sei o que seria de nós sem a companhia de alguém que nos faz ver, em cada canto da casa, todas as possibilidades do mundo.”

Gregório Duvivier – Folha de Sp

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