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covid 19: saúde mental e os impactos do isolamento na sociedade

Sabemos que estamos vivendo tempos desafiadores, muitas incertezas e angústias pairam sobre o peito da maioria dos empreendedores, empresários, e na verdade de todos nós. Lidar com um cenário incerto, gerenciar empresas, manter os empregos e motivação das equipes e se preocupar com o bem-estar dos que estão em nossa volta não tem sido uma tarefa fácil. Assistimos pelas janelas de casa e pelas janelas virtuais o sentimento de medo e angustia perpetuando dentro de cada um de nós. Uma onda de ansiedade e pânico veio que nem um tsunami para os ansiosos – e os nem tão ansiosos assim.

Já mencionamos por aqui, mas esse blog nasceu com a intenção de ser um espaço colaborativo e cada assunto que a gente escolhe trazer tem como objetivo esclarecer e ajudar as empresas e indivíduos a se adaptarem, reinventarem e resignificarem para lidar com esse momento de crise tanto em aspectos econômicos quanto sociais.

Saúde mental era uma pauta que estava na nossa lista faz um bom tempo, mas ainda não havíamos encontrado a melhor forma de abordar um tema tão sério e que exige conhecimento. A gente queria trazer algo além do que estamos saturados de ver na internet como “faça yoga, se alimente bem, tome um banho antes de trabalhar e faça meditação” – aliás nada contra esse tipo de conteúdo, inclusive achamos extremamente válido e importante mas nossa intenção era ir mais fundo. Falar sobre os pontos que estão sendo gatilho de angustia pra muita gente.


Pensando nisso, convidamos a psicóloga Gabriela Cordaro para nos ajudar a falar desse tema tão necessário e importante que é a saúde mental em tempos de pandemia e esclarecer como o isolamento social tem trazido grandes impactos na nossa sociedade e como podemos lidar com isso em casa e no âmbito profissional:

1) Temos percebido que o isolamento social tem trazido grandes impactos na saúde mental e gerado muita ansiedade nas pessoas. A situação é obviamente difícil e triste para todo mundo, mas o que você acha que fez com que a ansiedade tenha se transformado no “mal do século” e tenha vindo com tanta força durante a pandemia?

Como muito tem se falado, estamos passando por um momento com pouquíssimos precedentes. Existem poucas comprovações científicas sobre como tudo isso foi ocasionado e como será resolvido. Não sabemos quando voltaremos a trabalhar fisicamente, quando nossos filhos voltarão à escola, nem quando os comércios abrirão totalmente. Só de estarmos diante dessa situação, é totalmente compreensível que passemos por algumas experiências de ansiedade e de preocupação com o futuro.


Outro fator importante é que estamos totalmente expostos o tempo todo. Não importa a idade que tenhamos... Os alunos estão sendo observados não só por suas professoras, mas também por seus pais durante suas aulas. Os professores estão sendo observados não só por seus alunos, mas também por seus pais. Nós estamos sendo observados por nossos filhos e companheiros durante nosso trabalho. Nossas reuniões de trabalho ficam gravadas, qualquer um pode ter este acesso quando quiser!


Momentos que antes poderiam ficar no tête-à-tête, agora são compartilhados. Diante disso, nossa exposição aumenta muito mais e isto nos deixa mais inseguros, ansiosos e aumenta a auto cobrança.

Mais um elemento importante se dá pelo fato de que todas nossas funções estão ocorrendo em um único ambiente. Nós, seres humanos, nos organizamos psiquicamente pelo tempo e espaço, e isso nunca esteve tão “bagunçado”. A organização de nos dividirmos em tarefas e papeis está colocada em cheque. Tudo está ocorrendo ao mesmo tempo e no mesmo local: família, trabalho, lazer... É comum que as pessoas experimentem também ser um pouco diferentes em cada um destes papéis, por exemplo, uma mesma pessoa pode ser muito tímida no trabalho, super engraçada com os amigos e bem rígida e séria na família. Agora, essas múltiplas facetas não têm espaço. Passar por isso é, sem dúvidas, angustiante, ou até sufocante.

2) Donos de empresas e empreendedores estão lidando com uma pressão muito grande em relação a gestão dos seus negócios aliado a saúde e bem estar próprio e de seus colaboradores. Que dica você traria para ajuda-los a lidarem com isso?

DIÁLOGO, TROCA E ESCUTA!

Propor momentos de compartilhar experiências é extremamente saudável neste momento e sempre. Poder ouvir seus colaboradores, e deixar também que eles te ouçam, é essencial. Antes de qualquer coisa, somos humanos e somos passíveis de sofrimento - é importante que possamos nos escutar e trocar.

Também é interessante trazer uma pessoa de fora da empresa para estes momentos de conversa ou para, por exemplo, dar uma palestra. Quando estamos mergulhados na mesma rede, não é tão fácil perceber certas minúcias e sutilezas. Pessoas de fora podem contribuir e muito nestes momentos! É sempre bom ter um novo olhar, um olhar mais imparcial.

3) O trabalho remoto veio como uma necessidade de segurança e conforto para os que podem exercê-lo durante este período, mas junto dele vieram diversos atributos que precisam ser conciliados durante o horário de expediente. Cuidar da casa, de si e para os que tem filhos ainda tem o ensino a distância e a cobrança de não conseguimos nos doar por inteiro em nenhuma dessas funções é muito grande. Como as pessoas podem lidar com isso de uma forma mais leve?

Se cobrando menos! Precisamos ser mais pacientes e respeitosos com nós mesmos.

Se alguém te falasse, no fim de 2019, que em 2020 aconteceria tudo isso, você acreditaria que daria conta? Provavelmente, não! Mas nós estamos aqui e estamos dando conta da melhor forma que conseguimos neste momento. Se cobre menos, você já está matando um leão por dia.


Uma sugestão é organizar os horários para que um afazer não invada o outro. Por exemplo: ter um momento para estar com a família, um momento para o trabalho, um momento para os amigos, um momento para fazer uma aula online... e não tudo ao mesmo tempo.

Estamos sempre querendo atingir o TODO. É importante que possibilitemos espaços também para as faltas – isso não é um problema, é saudável.


Como sou também da área de educação, aproveito para dizer o que tenho dito para os pais dos alunos da escola em que trabalho: o importante é que seu filho mantenha minimamente uma rotina escolar, mantenha a chama do aprendizado acesa. Se ele está dando conta disso, já é muito bom. Possíveis defasagens pedagógicas irão acontecer, porém não será algo específico do seu filho. As escolas estão se reinventando e precisarão continuar a fazer isso no retorno presencial. Seja parceiro da escola do seu filho e peça ajuda sempre que preciso!

4) Medo é uma palavra bem constante durante todo esse processo. A pandemia por si só já acarreta muito disso em nós mas a preocupação em relação a saúde dos nossos empregos é muito grande. É natural estarmos em constante estado de alerta e medo em relação a saúde física e econômica nossa e daqueles que amamos?

Muitos dos noticiários estão nos levando a ficar neste estado de medo e alerta constantemente. É importante estar consciente e antenado, mas também preservado.


Antes da pandemia, era muito comum ouvir pessoas falando de modo separado da saúde mental e da saúde física. Com toda essa situação, fica cada vez mais claro que existe uma única saúde. Precisamos cuidar de nós mesmos como um todo. Tratar da nossa saúde também é tratar da nossa saúde mental. E a mesma reflexão devemos levar para as pessoas que estão ao nosso redor.


É importante ter uma rede de apoio: pessoas que você sabe que pode contar, e também e deixar claro que as pessoas próximas de você podem contar com você.

5) Nunca foi tão levantado o tema “saúde mental” nas matérias e mídias sociais. Você acha que abordar o tema de forma mais frequente faz com que mais pessoas busquem ajuda se necessário?

Sim. O termo saúde mental está “na boca do povo” e que bom!!! Mesmo hoje em dia, sei que existem pessoas que acreditam que psicoterapia é só para casos graves, mas não é bem assim. Psicoterapia não é conselho, não é com um amigo, não é feita por qualquer um.


A procura para psicoterapia, inclusive, tem aumentado neste período.

Este momento nos ocasiona entrar mais em contato com nós mesmos, nos ouvir mais, estar mais tempo sozinhos. É um momento extremamente potencial. Podemos usar isso! Procurem um psicoterapeuta.

6) Existe um fator delimitante para identificarmos se os sentimentos que estamos tendo nesse momento são naturais pelo processo que estamos vivendo ou se estamos desenvolvendo sintomas de quadros depressivos ou de ansiedade? Como saber que é hora de procurar ajuda profissional?

Todos estamos passando por experiências de sofrimento neste momento. Nestes casos, não precisamos pensar em diagnósticos. Se você sentiu a necessidade de procurar a ajuda de algum profissional, procure. Estes fenômenos não precisam ser tratados como patologia, mas sim como indicações sobre o que se passa em nós internamente.


Quando não falamos, não quer dizer que não sentimos, mas que talvez precisemos de ajuda para conseguirmos falar. É importante que as manifestações de sofrimento possam ter lugar pela via da palavra.


Não é preciso esperar que a situação se agrave para procurar ajuda.

Cuide-se, e não só fisicamente!

7) Como podemos nos preparar psicologicamente para um futuro incerto? Ao voltarmos “ao normal” ele vai ser bem diferente do que estávamos acostumados e teremos que passar por um novo período de adaptação.

Acredito que vale a pena a reflexão: será que o normal de antes era tão bom assim? Quantas vezes não pensávamos: como eu queria ter mais tempo com meus filhos; como eu queria ficar mais em casa; como eu queria perder menos tempo no trânsito; como eu queria ter alguns dias de trabalho em home office...


É importante que consigamos olhar esta situação também como uma oportunidade de nos rever (e aqui não excluo, de forma alguma, todas as tristezas que a pandemia nos trouxe e nem pretendo romantizar tudo isso). É importante que aproveitemos para analisar nossa rotina anterior e pensemos se era isso que queremos para nossa vida.


Sim, passaremos por um período de adaptação, mas será que não era exatamente disso que estávamos precisando?

8) Você acredita que esse período de isolamento terá um efeito transformador nas pessoas? Acha que as prioridades e comportamento de consumo serão os mesmos depois que tudo terminar?

Espero e acredito que sim! Como citei acima, até mesmo nossa organização psíquica foi estremecida por conta do momento que estamos passando. Tivemos que nos reinventar e recriar.

Passamos a dar mais valor a pequenas coisas. Sentimentos, expressões ou impressões, que antes poderiam passar despercebidos, agora estão a flor da pele, estão estampados na nossa cara! Muitas pessoas estão mais irritadas e nervosas, e muitas estão mais tranquilas. Muitas pessoas também estão aproveitando este momento para colocar as pendências em dia.


Aulas de yoga e meditação nunca foram tão procuradas!

Soube também de uma pesquisa feita na China a respeito dos itens mais comprados durante a quarentena, alguns foram móveis para home office e itens para cortar o cabelo em casa. Quando pensamos nisso antes? Quem é que iria querer uma cadeira de escritório em sua casa? Ou quem é que iria preferir cortar o cabelo em casa ao invés de ter a experiência gostosa de ir ao cabelereiro ou ao barbeiro?

Acredito que os interesses estão mudando, e penso que as empresas precisam ser espertas para ler este momento.

9) Falamos muito aqui no nosso blog que essa é uma fase da sociedade e marcas se ressignificarem em relação a diversos âmbitos da vida, sejam pessoais ou profissionais. Você concorda com isso? Como você enxerga esse processo?

Com certeza! As demandas das pessoas estão mudando como comentei acima. Acredito que as marcas mais acolhedoras e presentes serão as que conquistarão os consumidores neste momento. As pessoas querem ser ouvidas, querem que valorizemos o tremendo esforço que estão fazendo.


Cada um de nós está sendo um polvo para dar conta de tudo. Penso que as marcas precisam chegar em todos estes tentáculos para alcançar o cerne dos sujeitos.

Gabriela Cordaro

Psicóloga. Pós-graduada em Educação Inclusiva e Gestão das Diferenças.

Atualmente atua como psicóloga escolar em uma escola da rede privada e faz parte da equipe do Trapézio – Grupo de apoio à escolarização.


Está trabalhando em home office e fazendo o isolamento social junto com a família

(pais, companheiro, irmã, cunhado e sobrinhos).

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